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Entre o começo e o fim...

Porque a vida não acaba quando o cancro começa... Simplesmente recomeça...

Entre o começo e o fim...

Porque a vida não acaba quando o cancro começa... Simplesmente recomeça...

12.07.18

Reunião na escola...


Cristina Ferreira

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Estaciono, saio do carro e dirijo-me a passos largos para a entrada da escola. Cheguei cedo e sou uma das primeiras mães a entrar na sala de aulas. Sento-me numa das mesas da frente e aguardo.

A escola foi recentemente remodelada e reequipada. O ambiente é jovem e agradável. Observo discretamente a professora, observo minuciosamente os pais e as mães que vão entrando. Mais mães do que pais, na verdade.

Cumprimento, sorrio, tudo mecanica mas cordialmente atuando... Faço perguntas, respondo a questões... Ouço vozes falar... E de repente o vazio. Sinto-me a afundar, sinto-me sozinha apesar de rodeada de gente... As vozes continuam a falar, mas eu já não as consigo ouvir...

Esta é a ultima reunião do 10º ano do meu menino grande. Até hoje, eu nunca faltei a uma reunião da escola. Em setembro, certamente tudo vai mudar... Tudo depende de quando vai começar... Uma onda de melancolia com sabor a despedida abate-se sobre mim e apetece-me chorar...

 

 

11.07.18

Agora, eu e a caixa do correio...


Cristina Ferreira

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A biopsia foi a 7 de maio, e "a espera pelo resultado" foi longa...

A espera pelo resultado foi tão, tão longa que, ainda hoje, quando chego a casa, sinto o que eu de forma brilhante e original designei de "trauma da caixa do correio".

Sim, sempre que possível, tento ironizar... É a única forma de conseguir juntar forças para tentar ultrapassar o medo que diariamente teima em invadir-me...

 

 

 

 

10.07.18

Truque para lidar com situações muito dificeis...


Cristina Ferreira

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Sempre tive um truque para lidar com situações difíceis. À primeira vista pode até parecer um truque um pouco absurdo, mas a verdade é que normalmente resulta.

Perante qualquer situação difícil, eu tento sempre imaginar vários cenários de desfecho, possíveis ou não de acontecer... Crio uma espécie de escala de "desgraça e descalabro". No topo da escala coloco o pior de todos cenários, chamo-lhe: "o cumulo da desgraça". No fundo da escala  coloco o melhor dentro dos piores e simplesmente chamo-lhe: "sorte". Apenas e só "sorte"!

Quando o cenário real me é revelado e eu já tinha imaginado vários cenários bem piores, então esse cenário mau passa a ser o melhor cenário dentro dos cenários maus prováveis...

Confuso? Talvez... Mas no final não acaba tudo por ser apenas uma questão de palavras e de perspetiva?

 

09.07.18

Mais uma consulta...


Cristina Ferreira

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"Vai demorar um bocadinho... Pode aguardar Cristina."

Eu sei. Agora eu já sei. Demoram sempre.

Aproveito para ir à casa de banho. O espaço é horrível. As portas são verdes... Não é o verde a cor da esperança? Talvez... Mas não este verde! Este verde é aquele verde escuro e sem graça, deprimente só de olhar...

No entanto, sorrio: se fosse um verde ligeiramente mais brilhante, seria o verde do Peugeot 404 que o meu pai tinha, há quase 40 anos atrás. Vivíamos em França e eu era pequenina... Não usávamos cinto de segurança no banco de trás... O meu pai assobiava enquanto conduzia... O meu pai conduzia devagar... 60km hora para ele já era, naquele tempo, acelerar! Sorrio...

Lavo as mãos e observo o meu reflexo no espelho. Da criança feliz que um dia fui, guardo apenas vagas recordações... Hoje eu tenho 44 anos e estou outra vez no IPO.

 

06.07.18

Um local familiar...?


Cristina Ferreira

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O local começa a ser familiar. É a minha quinta visita aqui...

Ainda me pergunto o que faço aqui... Ainda procuro o engano, o erro, o fim do pesadelo...

Salas de espera de hospitais são para "pessoas doentes".

Pessoas doentes tem dores. Eu não tenho dores...

Sensação estranha esta de me dizerem que estou doente quando eu nada sinto...

 

05.07.18

Biopsia não dói...


Cristina Ferreira

 

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Há momentos que eu não gosto de recordar... Há medos que eu não gosto de lembrar que senti... 

 

Após entrega do resultado da ecografia, a minha médica de família encaminhou-me para o IPO. Após a primeira consulta, aguardei cerca de um mês pela marcação da biópsia. Os dias que a antecederam foram dias de pânico total. Pesquisara 1001 coisas e muitas vezes lera que a biopsia podia ser um procedimento muito doloroso...

 

Eu nunca tivera dores fisicas. Com execção das, por vezes exageradas, dores musculares após absurdo esforço no ginásio, só conheço as dores dos partos. No entanto, até os meus partos foram simples e sem quaisquer complicações. As minhas recuperações foram rápidas e qualquer dor que possa eventualmente aí ter sentido foi rapidamente anulada e substuída pela expressão ternurenta e pela sensação de calor suave dos bebés pequeninos, lindos e fofos que me colocaram nos braços! Tive sorte... Acho que sempre tive muita sorte...

 

Fui para a biopsia como quem vai para a forca... Mas a verdade é que a biopsia não dói. Aliás a biopsia talvez nem sempre doa. Aliás a minha biopsia não doeu... Eu não senti nada. Eu não senti nada para além da ligeira picada da agulha da anestesia e do toque carinhoso da mão da enfermeira que me apoiava segurando pacientemente a minha mão...

 

Biópsia não doi, o que doi é o resto: o medo e a ansiedade do que poderá vir a seguir...

 

 

04.07.18

Pesquisar... Desesperadamente pesquisar...


Cristina Ferreira

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Desde o dia em que "na ecografia"  me comunicaram que eu tinha um "nódulo suspeito" que todos os meus tempos livres foram obsessivamente passados a pesquisar na Internet...

Descobri que 1 em cada 5 biopsias não acabam em cancro da mama... Descobri que 1 em cada 8 mulheres terá cancro da mama... Descobri que surgem à volta de 4500 novos casos de cancro da mama, por ano, em Portugal... Descobri que quando detetado cedo, a probabilidade de cura é superior a 95%...

Acima de tudo, descobri que não sabia nada de nada...

Números que até há muito pouco tempo atrás, para mim, não passariam de números, totalmente indiferentes e sem qualquer sentido, transformaram-se na cruel esperança de não vir a pertencer às estatísticas...

 

 

03.07.18

Como tudo começou...


Cristina Ferreira

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Quando entrei não tinha nada e quando saí "da ecografia", saí com um "nodulo suspeito"...

 

É muito difícil descrever o que senti naquele momento e nos momentos que se seguiram... Incrédula, lembro-me que apenas repetia, mentalmente, e vezes e vezes sem conta: "Biopsia... Nódulo suspeito... Biopsia... Nódulo suspeito... Biopsia..." Bloqueara... Não conseguindo perceber como era possível aquilo estar a acontecer-me a mim, lembro-me de ter perguntado, insistindo como um disco de vinil riscado: "Como assim, uma biopsia? Como assim, uma biopsia?" Entre o apática e o apavorada, sentia as lágrimas que já cobriam os meus olhos querendo soltar-se, mas insistia como que desafiando o destino: "Mas a minha médica disse que era só rotina! Que devia ser só um quistozinho! Para eu não me preocupar..."

 

"Calma... Uma coisa de cada vez... Vou pedir um exame mais detalhado... Pode ser só hormonal..." Mas algo no olhar dele insinuou que ele tinha experiência demais para me conseguir tranquilizar...

 

Sai do gabinete escuro... "Não! Não! Não! A mim não! Não é possível..." Era sexta-feira, passava das 18h20 e tinha de ir buscar o meu filho. Tentei não chorar... Já estava atrasada. Demasiado atrasada. Não havia tempo para chorar.

 

Liguei-lhe: "Estou quase a chegar, espera só uns minutinhos..." "Aguenta, aguenta, aguenta! Ainda não! À frente dele não... Não podes preocupá-lo..." Finalmente avistei-o... O meu menino pequenino que já é um bocadinho muito grande, mas ainda é um bocadinho pequenino pequenino... Ele entrou no carro e eu tentei disfarçar: "Correu bem o dia, meu anjo?" Mas ele conhecia-me bem demais: "Que tens mamã? Estás estranha... Que se passa? Estiveste a chorar...?"

 

Disfarcei a verdade: "Fui fazer aqueles exames da médica... Posso ter de fazer uma pequena cirurgia... Como a avó, lembras-te?" Ele sabia que a minha mãe fora operada há uns anos atrás, mas não sabia que tinha sido apenas um quisto nos ovários... "Não queria nada fazer uma cirurgia... Tu sabes: a mamã é uma medricas!" Riu-se aceitando... Estacionei, subimos juntos... 

 

Pousei rapidamente os sacos que carregava na mão e lançando-lhe um rápido "Vou adiantar o jantar..." entrei na cozinha ainda escura. Tranquei a porta e aí, só aí, permiti que as lágrimas que até minutos antes tentara bloquear, finalmente se soltassem...