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Entre o começo e o fim...

Porque a vida não acaba quando o cancro começa... Simplesmente recomeça...

Entre o começo e o fim...

Porque a vida não acaba quando o cancro começa... Simplesmente recomeça...

10.08.18

E na praia, onde estão?


Cristina Ferreira

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1 em cada 8 mulheres teve, tem ou terá cancro da mama...

 

Estou na praia... Obsessivamente observo as mulheres de cabelo curtinho perguntando-me se será opção ou se será o rasto da quimioterapia...

 

Ao meu lado, uma senhora na casa dos 60. Chama-me à atenção não só pelo cabelo curtinho abafado por um pequeno chapéu de palha, mas também pela t-shirt que não despiu e ostenta sob um fato de banho subido. Está de costas. Eu observo-a. Eu não consigo desviar o olhar. Eu espero pacientemente que ela se vire ou levante... Eu procuro desesperadamente um desnível que me prove alguma evidência de prótese ou reconstrução...

 

Mas levanta-se e nada! É apenas uma mulher de cabelo curtinho e t-shirt na praia. Sorrio... Obcecada? Talvez...

 

Mas a mulher 1 em cada 8 tem de estar em algum lugar... E certamente haverá algumas algures ao meu lado na praia.

 

09.08.18

Os Oscares do IPO...


Cristina Ferreira

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Não gosto de ir ao IPO.

No IPO a luz é baça e o ambiente é pesado.

No IPO a sala de espera é sombria.

O IPO é o local onde tudo é real.

No IPO respira-se um ar doente.

No IPO sufoca-se entre os rostos pálidos dos doentes e os rostos preocupados e impotentes dos acompanhantes desgastados.

No IPO eu agradeço a sorte que eu tive por, até hoje, eu ter vivido toda a minha vida, de forma mimada, num mundo tão afastado desta paralela realidade.

No IPO os funcionários são simpáticos.

No IPO chamam-nos pelo nome sorrindo parecendo querer personalizar.

No IPO o dono do nome levanta-se e, como numa entrega de Óscares, atravessa orgulhosamente a sala, entrando depois decididamente no estreito corredor onde vai levantar o seu prémio.

No IPO os prémios são pesados como estatuetas de ouro mas não estão brilhantemente exibidos à vista de todos: carregamo-los dentro de nós.

No IPO o estreito corredor que nos leva às consultas é medonho e sombrio como um corredor da morte do qual sabemos que nem todos sairão vivos.

Mas do IPO, com sorte, eu sairei com um diploma de sobrevivência e... alguma leveza no peito...

 

 

 

08.08.18

Fugir...


Cristina Ferreira

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O tempo passa... Está quase... Está a chegar...

 

Não quero! Não sinto dores! Não me sinto doente! Não quero!

Imagino-me a fugir do IPO... Véspera da cirurgia e querem-me internar...

Imagino-me a acordar despedaçada...

Não quero ser despedaçada!

Antes que isso me aconteça, fujo imaginando-me a voltar apenas tranquilamente para casa...

 

Paro... Saio dos meus pensamentos e acordo para o mundo real...

Repetida e dolorosamente compreendo que se voltar para casa aí sim vou ficar doente, aí sim vou sofrer e... posso não sobreviver...

 

Sufoco... Aconteceu... Não posso fazer nada...

Simplesmente não posso fugir...

 

 

02.08.18

Corajosa ou medricas?


Cristina Ferreira

 

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Não, eu nunca pertenci ao grupo das corajosas. Se houvesse um adjetivo para definir o que se é quando se é precisamente o oposto de corajosa... Se houvesse um adjetivo para definir o que se é quando se é aquele oposto colocado numa escala, muitos e muitos degraus abaixo da medricas, seria nesse grupo que eu me incluiria. Sim: degraus e degraus abaixo da medricas!

 

Perante esta nova situação (sim hoje vou apenas e só chamar-lhe "nova situação") que me faz morrer de medo só de pensar, para me reconfortar, tento pensar nas coisas que antes não fazia e agora já faço com extrema facilidade.

 

Penso, por exemplo, nas idas diárias ao ginásio. Penso no massacre constante e quase doentio dos meus pequenos músculos e no quanto, mesmo quando já muito massacrados, eu aguento mais e mais o movimento e repito outra e outra e outra vez... Dores musculares são na verdade as únicas dores que eu conheço e ultimamente dou comigo a analisar o meu nível de tolerância à dor através do nível de esforço que eu consigo dosear no ginásio.

 

Absurdo? Sim talvez... Mas se há algo que estas idas quase diárias ao ginásio, ao longo dos 3 últimos anos me ensinaram foi que, não só consigo ser persistente, como o corpo treinando evolui.... Evolui e, apesar dos meus 44 anos, ainda não encontrei o meu limite... Os meses passam e eu continuo a conseguir sempre fazer um pouco melhor...

 

Até onde conseguirei eu suportar...? Até onde me vai o meu corpo pedir para aguentar...? Até onde me vai a minha mente arrastar...? Conseguirei eu subir alguns degraus na escala e elevar-me ao ponto de me conseguir inserir no grupo das pelo menos um pouco corajosas...?